Tenho observado meu pai, cotidianamente e sem neuras. Não gostaria de ficar seguindo ele, somente estar perto quando necessário. Às vezes estou em casa fazendo alguma coisa e, de repente, ele está lá na posição de cócoras. Nesses momentos de observação, um aconteceu no dia 24 de setembro último. Como não tinha câmera, corri e peguei o celular para filmar. A imagem do vídeo não tem tanta qualidade, só o suficiente para perceber a movimentação dele, como seu corpo se transforma para ficar e sair desse estar agachado.

Estou gostando de fazer assim. Isso me mantém atenta à organização corporal nesta posição. É impressionante! O meu olho já vai direto para uma situação em que ela está presente no corpo de alguém, quer seja em casa ou fora dela. Entendo também esse nível de atenção como uma forma de testar minha percepção em meio ao ambiente caótico em que vivo, minha casa familiar.

Como falei, comecei a escrever este texto em setembro. Decidi retomar sua escrita, porque ainda me mobiliza idéias, traz questões importantes sobre os chamados estados corporais. Daí desenvolvi um pouco mais no que diz respeito ao cotidiano do meu pai. Instiga-me pensar em como ele, meu pai, organiza-se para ficar de pé e de cócoras.

Noutro dia ele estava consertando meu carro. Percebi sua movimentação dentro do automóvel que estava sem o banco do passageiro. A maneira como ele se apoiava para não cair me impressionou. Em nenhum momento ele se desequilibrou. As pernas estavam firmes e seu corpo bem familiarizado ao percorrer os caminhos para sair da postura agachada dentro e fora do carro.

A impressão que tenho é que ele não pensa, no sentido de racionalizar a ação, pois o corpo responde logo. Ao assistir o vídeo que gravei, ao vê-lo de novo, uma imagem formou-se na minha mente, a de um macaco. Seu tronco estava à frente, com a cabeça para baixo e suas mãos apoiavam-se no chão do carro. Essa constatação me fez pensar sobre o conceito de memória corporal, que tem a ver com a ancestralidade humana, possivelmente.

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