Agrada-me muito ir ao centro de Fortaleza nas manhãs de sábado. Aproveito para olhar livros, comprar alguma coisa necessária, pois é mais barato. Gosto também de tomar meu açaí preferido, perto da Praça do Ferreira.

Nessas minhas andanças pelo centro da cidade, resolvi visitar o Mercado Central, um ponto turístico daqui. Lá encontramos artesanato local como artigos feitos de couro e redes bordadas, até iguarias como castanhas, doces de caju e a famosa cachaça.

Chegando neste mercado, deparei-me com uma senhora que estava na posição de cócoras. Fiquei olhando-a por um tempo, tentando entender o porquê daquela situação. Esperei que ela se levantasse em algum momento. Para a minha surpresa, ela permaneceu acocorada mais do que eu esperava.

Então me aproximei dela e perguntei seu nome. Disse que eu era bailarina, trabalhava com dança, e que estava fazendo uma pesquisa. Gentilmente, fiz algumas outras perguntas. Durante a conversa, ela me disse que havia ficado “assim” aos 15 anos depois que tomou um banho no mar em companhia de duas amigas.

Dona Franci (nome fictício) contou que nenhum médico soube explicar a razão de continuar naquele estado. Ela não bateu a cabeça em nenhum lugar, muito menos foi empurrada no mar. Hoje mora sozinha, pois seus parentes já morreram. Desde o incidente, sustenta-se com a ajuda de uns poucos conhecidos seus. Os lugares onde está presente rotineiramente é na Avenida Monsenhor Tabosa, um dos corredores comerciais da área turística da Praia de Iracema, e no Mercado Central, onde eu a encontrei pela primeira vez.   

Fiquei imaginando como uma pessoa de 70 anos vive desde os 15 na mesma posição, esta que estou investigando, a posição de cócoras. Como é passar todos estes anos olhando de baixo para cima? Mais que isso, como uma pessoa que vive assim se defende no mundo tão verticalizado? Outro agravante é que ela sempre está na condição de pedinte, acocorada e com a mão estendida a pedir ajuda.

Observando sua movimentação durante a trajetória que realiza pelo mercado, percebi algumas singularidades no modo como seu corpo se organizar para realizar tal ação. Para se locomover, ela coloca primeiro a mão esquerda à frente de seu corpo e depois a mão direita. Com isso, ela consegue apoiar o tronco, junto com as pernas e se deslocar. E ainda, as mãos estão sempre sujas por causa do contato com o chão. Além disso, vi que os joelhos são marcados e ficam praticamente grudados na região do tórax. Foi quando outra imagem formou-se na minha mente, quando ela se locomovia: a de um bloco.

 

Anúncios