PARTE II

 

 

Dia 28 de novembro

O estar de cócoras não é uma posição muito comum que uma pessoa assuma em locais públicos aqui em Fortaleza. Ela é estranha aos olhos do outro. Parece uma afronta à nossa educação. Ficar acocorado é tido como não-civilizado, não muito “bonito” de ver, tido como anti-social para muitas pessoas. Lembrei-me também das pessoas pedintes, aqueles que estão nas ruas, sujos, “feios”. Eles, nós não queremos ver.

Tal posição, porém, tem uma função bem natural para nosso corpo. Facilita a ação de exteriorizar os dejetos, logo, é uma posição do ser humano.  Uma ambigüidade que transita entre o feio e o bonito, como também o exterior e o interior.

Percebi essas relações um tanto ambíguas quando estava numa livraria conhecida aqui na cidade. Fui até a seção de auto-ajuda. Gosto desse tipo de literatura. Cumpre um papel importante na minha vida, pois me dá certo conforto, mesmo sabendo que muita gente ridiculariza livros dessa natureza.

Pois bem, como não vi nenhuma cadeira para sentar, resolvi ficar de cócoras, bem de frente para a estante. Confesso que me senti levemente constrangida, algo como se estivesse sendo mal-educada. Com pouco tempo nesse estado acocorado, (quero dizer, quando meu corpo assumiu tal posição), um vendedor aproximou-se de mim e, segurando um banquinho tipo puff, disse: “Toma isso aqui pra você ficar melhor!”. Eu olhei para ele e aceitei a sugestão, caso contrário, iria parecer indelicadeza.

O contraditório nessa situação é que a posição de cócoras deixa-me confortável e segura, pois nela posso me levantar rapidamente e, ainda,  fico mais próxima do chão. Por que eu não estaria bem? Esta ligação com a terra torna-me “espontânea” em meus gestos, é como se eu reconhecesse o território em que estou me relacionando. Talvez, por isso, a posição de cócoras tenha tanta afinidade com o trabalho dos apoios que realizo já há algum tempo. A longa permanência com as pernas flexionadas e o fortalecimento delas provêm também da prática constante das articulações em contato com o solo.

Os chineses ficam acocorados como uma ação habitual. Jogam cartas, leem ou simplesmente descansam nesta posição. É algo civilizado para eles, como mostra o texto “a arte de estar de cócoras”.Para os nossos olhos ocidentais, no entanto, não é bem assim, como li numa matéria jornalística sobre as Olimpíadas de Pequim.  

E me questiono de novo: o que podemos aprender com essa posição ordinária? Que tipo de subversão (revolta, contestar para mim) ou emancipação (libertar-se, mas para mim sempre soa como algo que está à frente do seu tempo) se configura no meu corpo quando fico de cócoras e/ou quando vejo alguém assim?

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