A relação da posição de cócoras e os costumes indígenas tem ficado mais evidente na investigação da pesquisa Casa. Para mim, há uma ligação forte com o comportamento habitual dos índios. Herdamos sua maneira tão peculiar desse estar próximo do chão. Eles simplesmente entregam-se à ação da gravidade, o que facilita a movimentação do corpo nos afazeres diários. 

Percebi melhor isso quando assisti ao vídeo-documentário  As mulheres das cócoras (22 minutos, 2006), produzido pelas pesquisadoras Graziela Rodrigues e Regina P. Müller (Unicamp/SP), sobre o povo indígena Asuriní do Xingu (Pará), tribo em contato com os brancos desde 1971. O cortar da mandioca, o varrer o chão e o esculpir a cerâmica foram as imagens das atividades que mais me chamaram atenção.

O interessante foi que os gestos cotidianos dessas mulheres lembraram meu pai. Senti similaridades no modo como o corpo se organiza no ficar/estar/permanecer de cócoras. Parecia que eu estava vendo ele lá, mas na versão feminina, principalmente, no que diz respeito à habilidade com as mãos e o jeito rústico de executar as atividades.

Para os índios, então, o “agachado” torna-se um estado em que encontram conforto, tranqüilidade e  comodidade no dia-a-dia. O corpo adequa-se de uma maneira tão singular à posição acocorada que o passar do tempo não é sentido de forma linear. É um tempo mais orgânico, diretamente ligado às necessidades básicas e às possíveis urgências de quem vive em grupo.

Conversei com meu pai sobre essa relação entre tempo e posição de cócoras. Ele disse que o estar acocorado facilita seus afazeres e evita também as dores nas costas. Às vezes, ele sente as pernas ficarem pesadas, depois de muito tempo nessa posição. No entanto, basta balançá-las um pouco, explicou ele, que logo voltam ao normal. Quer dizer, melhora a circulação do sangue.

 Esta semana consegui imagens dele limpando peixe no quintal e pintando umas tábuas para colocar na porta da entrada da casa, na posição agachada, é claro.

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