Na ação psicomotora do olhar, a observação ocupa um lugar importante no mapeamento dos ditos estados corporais na posição de cócoras que venho realizando.  

No último dia 23 de dezembro, fiz uma gravação na área da minha casa à noite e fiquei pensando sobre as imagens captadas. Nesse experimento, trabalhei o olhar fixo na posição acocorada.

Depois que vi minha própria imagem, lembrei-me das esculturas de Ron Mueck, em especial, a imagem gigante do menino na posição agachada. Parecem estar vivas. São hiper-realistas. Têm uma expressividade que nos chama a atenção, confundem-nos e questiona se aquilo é real ou não.

Mueck esforça-se bastante nos detalhes.  A escultura da mulher que acaba de dar à luz, por exemplo, parece traduzir a perfeição do corpo físico, este tão complexo, com tamanha veracidade e delicadeza. Já “The Big Man” é uma das mais famosas esculturas e nos proporciona um encontro com a solidão.

Pensando nessas obras, poderia eu também confundir o espectador? Se eu trabalhar o olhar e ficar imóvel por alguns minutos, será que as pessoas perguntariam se eu sou real?  Seria eu capaz de distorcer minha própria imagem a ponto de parecer um corpo inerte, sem vida?  

A vinda do “choro” é um percurso que tem se mostrado interessante na pesquisa.  Não é uma situação de sofrimento. O que acontece é que sou estimulada por um movimento corporal que faz com que eu tenha uma imagem e, assim, acontece a mudança do estado corporal.

É como se eu abrisse um canal no corpo que faz alterar o comportamento naquele momento.  Sou tomada por ele e fico assim por um bom tempo.

Sinto que ao fixar o olhar e permanecer sem piscar as pálpebras, os olhos começam a arder e as lágrimas surgem, embaraçando a imagem que estou vendo, que é o objeto para o qual estou mirando. Dá, então, uma “fraqueza” na região ocular.                                                                

Penso que é um outro estado corporal que eu provoco e direciono.  Se eu tenho um caminho que reconheço, eu sei o que pode acontecer, a mudança de estado já é esperada, de algum modo. Eu direcionei para que aquilo acontecesse e posso determinar um fim.  Assim, os olhos ficam irritados e as lágrimas são estimuladas a surgir, vir à tona.                                                                                                                                                                                                                                                    

                                                                                                                                                                                                                                  

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