Na ação rotineira de banhar-me, estou descobrindo um caminho para estimular e exteriorizar a emoção.

Outro dia, realizei o banho-ritual novamente, com os mesmos procedimentos. Tive a sensação de que esperava  alguma coisa. No banho anterior, isso não aconteceu. Senti uma diferença especial de um para o outro.  Foi como se eu tivesse adiantado o modo de fazer as coisas ou violentado a justeza do acontecimento ou do movimento. Não gostei. O choro demorou a vir, pensei até que não fosse acontecer. Mas veio e, quando veio, foi menos intenso, talvez.

De repente, ainda durante o banho, fui interrompida pelo meu filho, Gautier, de 17 anos. Sempre percebo quando ele chega em casa pela forma inconfundível de tocar a campainha. Ele entra de maneira desesperada, urgente, como se não pudesse perder tempo. Então, quando sinto sua presença, já fico na expectativa por um grito à minha procura. Quando ouvi seu chamado, logo pensei que tinha que finalizar o banho-ritual. Não conseguiria mais me concentrar. Foi decepcionante.

Nesse “novo” momento, algo que me chamou a atenção ao reavaliar o banho-ritual. Percebi a importância da presença do meu filho em casa. Tem a ver com minha capacidade / habilidade de reconhecer os sons. Consigo saber quem são as pessoas da minha família em ações do cotidiano sem estar olhando diretamente para eles.

Cada um tem uma maneira peculiar de se deslocar no espaço e, ao se colocar em movimento nesta ação, cada um provoca sons que lhes são próprios, bem pessoais. Quando estão subindo a escada de casa, por exemplo, ouço os sons dos passos e já sinto que são eles, sem precisar vê-los. Pensei, então, nos sons que atravessam o cotidiano das pessoas.

Por conta disso, o ouvir tem sido uma ação pertinente. Quando estou investigando, escuto o som de um sino de vento, um tipo de objeto sonoro que fica suspenso no  ar. Ao balançar, faz um som suave que, certamente, influencia minha movimentação. É uma sensação agradável aos ouvidos.

O contraponto vem quando escuto o ônibus que passa na rua onde moro. É um barulho irritante que me desagrada muito. Às vezes, os dois – sino e ônibus – surgem, simultaneamente, quando estou investigando no quarto ou na área livre de casa. Eles passam despercebidos, conscientemente, por eu estar bastante concentrada. Só depois, ao assistir as imagens filmadas, é que sei que  acompanharam minha dança.

Logo, audição e visão estão ficando aguçados. Tudo isso tem vindo à tona, especificamente, no ritual de banhar-me. No olhar, trabalho no que se refere à qualidade das imagens que estou a ver. Na audição, os sons que me atravessam quando inicio a movimentação e o paladar quando provo o sal grosso que utilizo no banho, adoro fazer isso. Como aguçá-los ainda mais para mapear outros estados corporais?

Por isso, decidi que era importante mudar de ambiente físico. Até agora, tenho trabalhado somente dentro da minha casa. O local escolhido foi a Praça José de Alencar, em frente ao conhecido teatro que tem o mesmo nome. Está localizada no centro de Fortaleza. Pretendo ficar acocorada por lá em meio aos transeuntes.

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