No mês de janeiro último, fui para o centro da cidade, aqui em Fortaleza. O local escolhido foi na Praça José de Alencar. Já há algum tempo, eu tinha o desejo de experimentar algo fora de casa, até então, o lugar habitual das minhas investigações.

No começo, eu fiquei um pouco nervosa. Já sentia, de algum modo, que as pessoas iriam estranhar minha presença lá de cócoras.

Primeiro, porque esta posição, como já escrevi aqui, é considerada por muitos como um comportamento pouco civilizado. Segundo, porque as pessoas, em geral, não reconhecem esse tipo de intervenção na cidade (e o que estou pesquisando) como dança.

Não é uma leitura fácil para elas, penso eu. Estão mais acostumadas com uma dança que faz movimentos mais amplos, como se vê em muitos espetáculos de palco. Esperam ver uma dança cheia de ritmo, tal como é bastante reproduzida nos programas de televisão. Talvez uma dança que aproxima as pessoas e não que as assuste como a minha nessa circunstância.

Para me ambientar, comecei sentada no banco e, depois, fui me acocorando bem devagar. Veio-me também certo receio de ser agredida de alguma maneira. Não estava tão habituada a colocar meu corpo nessa situação, estava muito exposta.

Logo no inicio, ouvi dois senhores comentando algo relacionado ao diabo, compadecidos por eu estar “daquele jeito”. Confesso que tive muita vontade de rir e quase levantei para finalizar tudo por ali mesmo. Mas pensei: devo insistir! E insisti.

Em seguida, uma criança aproximou-se e, logo depois, saiu. Lembro também que uma mulher perguntou para outra que estava próxima sobre o que estava acontecendo. Ela respondeu que era uma mulher que estava se entortando.

David da Paz, videomaker responsável pelo registro, estava um pouco afastado e isso fazia com que eu me sentisse ainda mais desprotegida. Às vezes, ele se aproximava, o que fazia com que eu me sentisse mais segura.

De qualquer forma, era algo bom, uma forma de sinalizar para quem por ali passava que aquilo que estava fazendo é arte, é dança! Não se tratava de uma possessão. Na verdade, meu corpo estava se “ambientando”.

O Sol tocava o meu corpo e provocava as sombras no chão. Sombras estas que surgiram também quando trabalhei com o refletor em casa.

Durante a realização, foi difícil rememorar, com exatidão, o que havia acontecido lá em casa, quando observava meu pai e quando eu investigava sozinha. Tanto que ao trabalhar o foco, demorei mais que o habitual, mas finalmente consegui “chorar”. O tremor das mãos também funcionou. Sentia apenas que tudo que venho experimentando no meu corpo estava lá, reorganizando-se e se atualizando, circunstancialmente.

Tudo isso numa intervenção que durou quase meia hora ininterrupta.

Anúncios