Na ação psicomotora do olhar, a observação ocupa um lugar importante no mapeamento dos ditos estados corporais na posição de cócoras que venho realizando.  

No último dia 23 de dezembro, fiz uma gravação na área da minha casa à noite e fiquei pensando sobre as imagens captadas. Nesse experimento, trabalhei o olhar fixo na posição acocorada.

Depois que vi minha própria imagem, lembrei-me das esculturas de Ron Mueck, em especial, a imagem gigante do menino na posição agachada. Parecem estar vivas. São hiper-realistas. Têm uma expressividade que nos chama a atenção, confundem-nos e questiona se aquilo é real ou não.

Mueck esforça-se bastante nos detalhes.  A escultura da mulher que acaba de dar à luz, por exemplo, parece traduzir a perfeição do corpo físico, este tão complexo, com tamanha veracidade e delicadeza. Já “The Big Man” é uma das mais famosas esculturas e nos proporciona um encontro com a solidão.

Pensando nessas obras, poderia eu também confundir o espectador? Se eu trabalhar o olhar e ficar imóvel por alguns minutos, será que as pessoas perguntariam se eu sou real?  Seria eu capaz de distorcer minha própria imagem a ponto de parecer um corpo inerte, sem vida?  

A vinda do “choro” é um percurso que tem se mostrado interessante na pesquisa.  Não é uma situação de sofrimento. O que acontece é que sou estimulada por um movimento corporal que faz com que eu tenha uma imagem e, assim, acontece a mudança do estado corporal.

É como se eu abrisse um canal no corpo que faz alterar o comportamento naquele momento.  Sou tomada por ele e fico assim por um bom tempo.

Sinto que ao fixar o olhar e permanecer sem piscar as pálpebras, os olhos começam a arder e as lágrimas surgem, embaraçando a imagem que estou vendo, que é o objeto para o qual estou mirando. Dá, então, uma “fraqueza” na região ocular.                                                                

Penso que é um outro estado corporal que eu provoco e direciono.  Se eu tenho um caminho que reconheço, eu sei o que pode acontecer, a mudança de estado já é esperada, de algum modo. Eu direcionei para que aquilo acontecesse e posso determinar um fim.  Assim, os olhos ficam irritados e as lágrimas são estimuladas a surgir, vir à tona.                                                                                                                                                                                                                                                    

                          Andréa cabeça ok 1                                                                                                                                                                                                        

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 A relação da posição de cócoras e os costumes indígenas tem ficado mais evidente na investigação da pesquisa Casa. Para mim, há uma ligação forte com o comportamento habitual dos índios. Herdamos sua maneira tão peculiar desse estar próximo do chão. Eles simplesmente entregam-se à ação da gravidade, o que facilita a movimentação do corpo nos afazeres diários. 

Percebi melhor isso quando assisti ao vídeo-documentário  As mulheres das cócoras (22 minutos, 2006), produzido pelas pesquisadoras Graziela Rodrigues e Regina P. Müller (Unicamp/SP), sobre o povo indígena Asuriní do Xingu (Pará), tribo em contato com os brancos desde 1971. O cortar da mandioca, o varrer o chão e o esculpir a cerâmica foram as imagens das atividades que mais me chamaram atenção.

O interessante foi que os gestos cotidianos dessas mulheres lembraram meu pai. Senti similaridades no modo como o corpo se organiza no ficar/estar/permanecer de cócoras. Parecia que eu estava vendo ele lá, mas na versão feminina, principalmente, no que diz respeito à habilidade com as mãos e o jeito rústico de executar as atividades.

Para os índios, então, o “agachado” torna-se um estado em que encontram conforto, tranqüilidade e  comodidade no dia-a-dia. O corpo adequa-se de uma maneira tão singular à posição acocorada que o passar do tempo não é sentido de forma linear. É um tempo mais orgânico, diretamente ligado às necessidades básicas e às possíveis urgências de quem vive em grupo.

Conversei com meu pai sobre essa relação entre tempo e posição de cócoras. Ele disse que o estar acocorado facilita seus afazeres e evita também as dores nas costas. Às vezes, ele sente as pernas ficarem pesadas, depois de muito tempo nessa posição. No entanto, basta balançá-las um pouco, explicou ele, que logo voltam ao normal. Quer dizer, melhora a circulação do sangue.

 Esta semana consegui imagens dele limpando peixe no quintal e pintando umas tábuas para colocar na porta da entrada da casa, na posição agachada, é claro.

                       Dia 28 de novembro  
                                    Andréa de cócoras cotovelos

O estar de cócoras não é uma posição muito comum que uma pessoa assuma em locais públicos aqui em Fortaleza. Ela é estranha aos olhos do outro. Parece uma afronta à nossa educação. Ficar acocorado é tido como não-civilizado, não muito “bonito” de ver, tido como anti-social para muitas pessoas. Lembrei-me também das pessoas pedintes, aqueles que estão nas ruas, sujos, “feios”. Eles, nós não queremos ver.

Tal posição, porém, tem uma função bem natural para nosso corpo. Facilita a ação de exteriorizar os dejetos, logo, é uma posição do ser humano.  Uma ambigüidade que transita entre o feio e o bonito, como também o exterior e o interior.

Percebi essas relações um tanto ambíguas quando estava numa livraria conhecida aqui na cidade. Fui até a seção de auto-ajuda. Gosto desse tipo de literatura. Cumpre um papel importante na minha vida, pois me dá certo conforto, mesmo sabendo que muita gente ridiculariza livros dessa natureza.

Pois bem, como não vi nenhuma cadeira para sentar, resolvi ficar de cócoras, bem de frente para a estante. Confesso que me senti levemente constrangida, algo como se estivesse sendo mal-educada. Com pouco tempo nesse estado acocorado, (quero dizer, quando meu corpo assumiu tal posição), um vendedor aproximou-se de mim e, segurando um banquinho tipo puff, disse: “Toma isso aqui pra você ficar melhor!”. Eu olhei para ele e aceitei a sugestão, caso contrário, iria parecer indelicadeza.

O contraditório nessa situação é que a posição de cócoras deixa-me confortável e segura, pois nela posso me levantar rapidamente e, ainda,  fico mais próxima do chão. Por que eu não estaria bem? Esta ligação com a terra torna-me “espontânea” em meus gestos, é como se eu reconhecesse o território em que estou me relacionando. Talvez, por isso, a posição de cócoras tenha tanta afinidade com o trabalho dos apoios que realizo já há algum tempo. A longa permanência com as pernas flexionadas e o fortalecimento delas provêm também da prática constante das articulações em contato com o solo.

Os chineses ficam acocorados como uma ação habitual. Jogam cartas, leem ou simplesmente descansam nesta posição. É algo civilizado para eles, como mostra o texto “a arte de estar de cócoras”.Para os nossos olhos ocidentais, no entanto, não é bem assim, como li numa matéria jornalística sobre as Olimpíadas de Pequim.  

E me questiono de novo: o que podemos aprender com essa posição ordinária?

Tenho investigado a posição de cócoras e percebo que a investigação está se configurando num procedimento que explora o peso do corpo e o toque em algumas partes dele.

A cabeça, principalmente. Ela se mantém em contato direto e imediato com joelhos, braços e mãos. Sinto uma parte “puxando” as outras como um tipo de magnetismo sensorial. E, então, elas se acomodam, repousam umas nas outras para novamente serem tensionadas quando realizo outra ação física.

As formas que construo no meu corpo estão estranhas. Às vezes, parecem-me assustadoras e, por conta disso, acredito que possam assustar quem estiver a observá-las. O desenho do corpo, embora não possa ser visto por mim, transmite algo de “entranhamento”.

As pausas, o tempo dado a cada movimento, tudo isso tem também certa função de reconhecimento dessas imagens-formas na minha mente. É como se eu quisesse entrar em mim mesma. A coluna curva-se e quase abraça as pernas como uma concha.

                                                

                                                                Sem título

 

Agrada-me muito ir ao centro de Fortaleza nas manhãs de sábado. Aproveito para olhar livros, comprar alguma coisa necessária, pois é mais barato. Gosto também de tomar meu açaí preferido, perto da Praça do Ferreira.

Nessas minhas andanças pelo centro da cidade, resolvi visitar o Mercado Central, um ponto turístico daqui. Lá encontramos artesanato local como artigos feitos de couro e redes bordadas, até iguarias como castanhas, doces de caju e a famosa cachaça.

Chegando neste mercado, deparei-me com uma senhora que estava na posição de cócoras. Fiquei olhando-a por um tempo, tentando entender o porquê daquela situação. Esperei que ela se levantasse em algum momento. Para a minha surpresa, ela permaneceu acocorada mais do que eu esperava.

Então me aproximei dela e perguntei seu nome. Disse que eu era bailarina, trabalhava com dança, e que estava fazendo uma pesquisa. Gentilmente, fiz algumas outras perguntas. Durante a conversa, ela me disse que havia ficado “assim” aos 15 anos depois que tomou um banho no mar em companhia de duas amigas.

Dona Franci (nome fictício) contou que nenhum médico soube explicar a razão de continuar naquele estado. Ela não bateu a cabeça em nenhum lugar, muito menos foi empurrada no mar. Hoje mora sozinha, pois seus parentes já morreram. Desde o incidente, sustenta-se com a ajuda de uns poucos conhecidos seus. Os lugares onde está presente rotineiramente é na Avenida Monsenhor Tabosa, um dos corredores comerciais da área turística da Praia de Iracema, e no Mercado Central, onde eu a encontrei pela primeira vez.   

Fiquei imaginando como uma pessoa de 70 anos vive desde os 15 na mesma posição, esta que estou investigando, a posição de cócoras. Como é passar todos estes anos olhando de baixo para cima? Mais que isso, como uma pessoa que vive assim se defende no mundo tão verticalizado? Outro agravante é que ela sempre está na condição de pedinte, acocorada e com a mão estendida a pedir ajuda.

Observando sua movimentação durante a trajetória que realiza pelo mercado, percebi algumas singularidades no modo como seu corpo se organizar para realizar tal ação. Para se locomover, ela coloca primeiro a mão esquerda à frente de seu corpo e depois a mão direita. Com isso, ela consegue apoiar o tronco, junto com as pernas e se deslocar. E ainda, as mãos estão sempre sujas por causa do contato com o chão. Além disso, vi que os joelhos são marcados e ficam praticamente grudados na região do tórax. Foi quando outra imagem formou-se na minha mente, quando ela se locomovia: a de um bloco.

 

Tenho observado meu pai, cotidianamente e sem neuras. Não gostaria de ficar seguindo ele, somente estar perto quando necessário. Às vezes estou em casa fazendo alguma coisa e, de repente, ele está lá na posição de cócoras. Nesses momentos de observação, um aconteceu no dia 24 de setembro último. Como não tinha câmera, corri e peguei o celular para filmar. A imagem do vídeo não tem tanta qualidade, só o suficiente para perceber a movimentação dele, como seu corpo se transforma para ficar e sair desse estar agachado.

Estou gostando de fazer assim. Isso me mantém atenta à organização corporal nesta posição. É impressionante! O meu olho já vai direto para uma situação em que ela está presente no corpo de alguém, quer seja em casa ou fora dela. Entendo também esse nível de atenção como uma forma de testar minha percepção em meio ao ambiente caótico em que vivo, minha casa familiar.

Como falei, comecei a escrever este texto em setembro. Decidi retomar sua escrita, porque ainda me mobiliza idéias, traz questões importantes sobre os chamados estados corporais. Daí desenvolvi um pouco mais no que diz respeito ao cotidiano do meu pai. Instiga-me pensar em como ele, meu pai, organiza-se para ficar de pé e de cócoras.

Noutro dia ele estava consertando meu carro. Percebi sua movimentação dentro do automóvel que estava sem o banco do passageiro. A maneira como ele se apoiava para não cair me impressionou. Em nenhum momento ele se desequilibrou. As pernas estavam firmes e seu corpo bem familiarizado ao percorrer os caminhos para sair da postura agachada dentro e fora do carro.

A impressão que tenho é que ele não pensa, no sentido de racionalizar a ação, pois o corpo responde logo. Ao assistir o vídeo que gravei, ao vê-lo de novo, uma imagem formou-se na minha mente, a de um macaco. Seu tronco estava à frente, com a cabeça para baixo e suas mãos apoiavam-se no chão do carro. Essa constatação me fez pensar sobre o conceito de memória corporal, que tem a ver com a ancestralidade humana, possivelmente.